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Mesmo com pouca chuva, esperança brota no Serão do Ceará

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No fundo sem nenhuma água do açude Quixeramobim, na cidade a 205 km de Fortaleza, seu Bernardo Feitosa Filho, de 52 anos, junta nas mãos o que ele mesmo consagra como “um tesouro no meio dessa seca toda”. Num saco de estopa de 50 quilos amarrado nas costas, vai cruzando um roçado de uma ponta a outra para guardar vagens graúdas de um feijão de corda maduro, sadio (sem lagartas), abundante. Em dia exato de ser colhido. “Isso aqui é uma riqueza. Não é todo mundo que tem um feijão desses”.

A visão é a da prosperidade, mesmo que ainda seja apenas o segundo mês do período de chuvas, com menos água que o esperado. No miolo de um açude sem chuva boa, seu Bernardo simbolizava a certeza da fartura. Até inesperada. Em outros cercados pelo Ceará, ainda nem há planta brotando. Seria ainda o tempo de crescer, mas nem aconteceu o tempo da nuvem chover. Nublou muito mais que molhou. Das chuvas normais, a colheita só deverá acontecer a partir de abril/maio.

O plantio é ao lado da parede da barragem. O Quixeramobim açude está seco de dar dó desde 2015. De ter registros insignificantes até este 2018, vem mirrando desde o início da estiagem de 2012. Estava com volume 100% em agosto de 2011. Foi a última sangria, o ano anterior da sua pior secura. É a sina atual também entre reservatórios vizinhos. Dos 19 açudes que formam a Bacia Hidrográfica do Banabuiú, onde fica o Quixeramobim, 16 estão “em situação muito crítica”. Quixeramobim cidade tem se resguardado na água fornecida pelo açude Pedras Brancas, da vizinha Quixadá. O abastecimento chega por adutora. Do lado da jusante, pedras cortantes expostas e um resto acumulado de água imprópria, de chuva mal distribuída, irrisória. Nestes dois meses e meio de 2018, choveu 174 mm, quando o esperado era de 688 mm (74,6% abaixo). O pior céu está sendo justamente o de março (-81,8%). O feijão que sobra no apanhado de seu Bernardo não é nem dele. Num acerto com o amigo Elias Honorato, dono da roça e que sofrera um acidente de moto poucos dias antes, ele fizeram a empreita de Bernardo ficar com metade do que colhesse. “Se soubesse que estaria bom assim (o feijão), teria vindo até antes”.

A mesma satisfação está se dando na lida de seu Jota de Oliveira Guerra, 57 anos, pastor e pescador em Itatira (a 216 km de Fortaleza. São Joaquim, um pequeno açude local, sangrou e está se derramando em direção ao açude João Silva Guerra, outro reservatório da cidade. Os dois são na localidade Lagoa do Mato. A água passa por debaixo da CE-168.

Em cinco horas de pescaria, seu Jota encheu meio saco de cará tilápia. Guardaria uns para o almoço da mulher e de dois dos oito filhos que ainda moram com eles. Os outros, venderia para comerciantes de Itatira. Posava para fotos e nem tinha notado um cardume de piabas nadando contra a descida da água. Mergulhou, cercou e apanhou um tanto. Com a mão.

“Estamos com água para mais um ano”, afirma Deujacir Vieira, o Dedê, apontador do volume dos açudes locais e morador em Lagoa do Mato. O São Joaquim, segundo ele, transbordou em 15 de fevereiro. “Estamos com água no distrito Bandeiras para mais um ano também. E mais um ano no açude Cachoeira, na BR-020”. Tanto o feijão catado por seu Bernardo Feitosa em Quixeramobim quanto a tilápia de Itatira, do pastor Jota, são ainda raridades desses dias de chuvas de 2018. De esperançar.

 

TILÁPIAS

MATEUS DANTAS
MATEUS DANTAS

Pastor e pescador em Itatira, Jota de Oliveira Guerra exibe tilápias de bom tamanho, catadas depois da sangria do pequeno açude local, o São Joaquim

FEIJÃO ABENÇOADO

 

Bernardo Feitosa, agricultor em Quixeramobim, colhe vagens de feijão no fundo do açude sem água. “Não é todo mundo que tem feijão desses”.

 

 

Redação O Povo Online/CLÁUDIO RIBEIRO

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